Bloggers e vloggers vistos pelo cinema

Anna Kendrik sentada ao computador a blogar no filme "A Simple Favor"

Toda a gente se quer expressar. Uns em texto, outros em vídeo e outros através da fotografia. As tendências foram mudando através dos tempos e é curioso ver isso pelos olhos do cinema. Em tempos fiz um trabalho académico sobre o marketing digital no cinema e o lançamento eminente de “Um Pequeno Favor”, que retrata as desaventuras de uma vlogger, levou-me a voltar a esse mundo. Então, em que filmes falam de bloggers e qual o seu papel?

Para começar vamos dizer que tive de excluir o cinema de terror e os thrillers. Quando usam os blogs com desculpa para a pessoa estar exposta e a atacarem, sabemos que há demasiada informação inventada. Este “Um Pequeno Favor” também é um thriller, mas esse tom não domina o filme como vais perceber quando o fores ver.

Primeiro foram os bloggers

Amy Adams sentada no computador a blogar no filme "Julie & Julia"
Fotograma do filme “Julie & Julia” com Amy Adams

Um dos mais conhecidos é “Julie & Julia” (2009) sobre uma mulher que decide seguir o livro de receita de uma lenda da cozinha e descrever num blog as suas experiências. O texto era rei. O tema era uma experiência pessoal com base num material conhecido e que qualquer um poderia reproduzir em casa e partilhar.

Rachel McAdams ao computador no filme "State of Play"
Fotograma do filme “State of Play” com Rachel McAdams

No mesmo ano saiu “State of Play” sobre investigação jornalística e o papel do repórter. Aqui já é importante a formação, a rede de contactos e a reputação. É sobre dizer a verdade e o dever de informar. O blog é visto como uma forma mais rápida e directa de chegar às pessoas do que a imprensa.

Deborah Secco sentada ao computador a blogar no filme "Bruna Surfistinha"
Fotograma do filme “Bruna Surfistinha” com Deborah Secco

Em 2011 saiu uma adaptação da vida como garota de programa de Bruna Surfistinha. Aqui era um relato pessoal sobre um estilo de vida fascinante, mas que é desconhecido, ou erradamente interpretado, pela maioria. O que esta mulher fez, foi relatar o que fazia e avaliar os seus clientes. Algo completamente inovador no seu meio e uma original forma de marketing pessoal.

Depois vieram os vloggers

Sara Barros Leitão sentada ao computador a vlogar no filme "Offline"
Fotograma do filme “Offline” com Sara Barros Leitão

Nem todos os filmes têm de ser americanos. Também em Portugal se explorou a estranha ocupação de vlogger. O nosso grande título foi “Offline” (2016) onde a divertida youtuber SailorSpoon fazia programas a solo e às vezes em parceria com um outro jovem youtuber. O canal seria a ponte com Portugal e os amigos durante a estadia no seu adorado Japão.

No mês passado reparei noutra produção RTP, “Verão M”, onde uma jovem vlogger relata o seu dia-a-dia repleto de aventuras para os seguidores. Ter um canal é agora tão normal como ter um telemóvel. Mas é melhor não falar de séries pois as produções americanas já fizeram de tudo. Começaram por ter hackers como vilões (que série policial não teve pelo menos um episódio desses?), foram evoluindo para catfishing que dá origem a raptos, e recentemente vi um episódio onde usavam o Twitter para localizar criminosos. Como na televisão se escreve muito material, é fácil falar de todos os temas antes.

Emma Watson ao computador no filme "The Circle"
Fotograma do filme “The Circle” com Emma Watson

No ano passado há uma ligeira variação do vlogging. Em “The Circle” (2017) a personagem Mae tem um momento em que assume a transparência como essencial e começa a fazer um live streaming de toda a sua vida. O que era marketing para a empresa (uma funcionária nossa usa isto, vocês também deviam) para ela começa a parecer um pesadelo. As pessoas vêem tudo e comentam tudo. O cinema já tinha explorado isso em canais de televisão (“The Truman Show”, “Ed Tv”), mas esses eram focados num só indivíduo. Com a Internet, toda a gente pode estar constantemente online. Com as redes sociais, podemos seguir quem quisermos. Assustador.

Anna Kendrik a vlogar no filme "A Simple Favor"
Fotograma do filme “A Simple Favor” com Anna Kendrick

Em “Um Pequeno Favor” (2018) uma mãe desempregada a viver temporariamente do dinheiro de uma indemnização, criou um canal para dar dicas a outras mães. Remédios caseiros, receitas, dicas de poupança… mas quando nós chegamos a esse canal, ela também está a partilhar a sua vida e aflições. A tragédia da vida real ajuda-a a conseguir seguidores.

Estamos numa era dourada dos loggers e o cinema está atento. Até se fazem filmes com youtubers (em Portugal tivemvos o “Ruas Rivais”) e é frequente dobrarem filmes de animação como Feromonas e MrNikki em “Os Feitiços de Arkandias”, novamente Feromonas em “Angry Birds” e Bumba na Fofinha dobrou “A Idade da Pedra”.
Por isso, se ainda não pensaste nisso, está na hora de pousares o teclado e ligares a câmara.

Mommy bloggers

As mommy bloggers são um assunto que enche filmes. Basta olhar para as produções que passam à tarde na Fox Life e frequentemente vemos referências a blogs. Normalmente escritos pelas mães, ocasionalmente pelas filhas.

Vamos fazer uma pausa para ler isso melhor. As mães e as filhas blogam? Volta para cima e repara com atenção nas fotos. Reparaste que todos estes filmes têm mulheres a blogar? “Offline” tem um youtuber, mas na vasta maioria dos filmes, é uma mulher que bloga/vloga. Vamos ver que estereótipo foi usado. Será porque nos blogs se revelam sentimentos e isso não é coisa de macho? Porque os homens não são como as mulheres, que querem impor aos outros as suas opiniões? Ou porque as mulheres vivem às custas dos maridos e lhes sobra tempo para blogar em vez dum trabalho a sério? Mesmo que não seja nada disso, não consegui encontrar referências no cinema a bloggers de género masculino. A não ser em personagens menores, como os indivíduos paranoicos que os usam para divulgar teorias da conspiração.

E os photologgers?

Esses estranhamente são ignorados ou tratados como fotógrafos. Sempre tivemos filmes sobre fotógrafos – alguns cineastas adoram o tema como Wim Wenders e Michael Winterbottom – mas onde as fotos vão parar é irrelevante.

O que se pode aprender com esta blogger?

Sem entrar em território de spoilers, há três grandes lições que se podem tirar.

Controlar a câmara

Esta é a lição mais fácil. Stephanie faz tudo sozinha e não precisa de editar porque 1) usa o zoom para só revelar o resto do seu balcão quando chega a altura; e 2) tem mais de uma câmara a gravar dando vários ângulos. Se não tiveres quem te filme, usa um comando remoto. Muitas câmaras fotográficas incluem esse acessório e filmam muito bem. O filme fica simples, mas bonito e dá pouco trabalho. Claro que isso obriga-te a conhecer o equipamento. Treino, treino, treino.

Como fazer seguidores

Se excluirmos os bloggers baseados em personagens reais, esta Stephanie Smothers é dos retratos mais realistas que já vi. Mais realista até que alguns a sério. Começa com poucos seguidores, quem a lê é quem a conhece e muita gente simplesmente para procurar motivos de maledicência. Acontece a todos.

Quando começa a interagir, a colocar questões, a pedir sugestões, a pedir ajuda, a comunidade responde e vai crescendo. Ela refere sempre no vídeo as pessoas que ajudaram, para elas se sentirem parte da história. E o storytelling é uma arma eficaz como poucas. Assim que começa a dar detalhes sobre a investigação do desaparecimento da amiga, a expor os seus sentimentos e a viajar em busca de pistas, a comunidade dispara. As pessoas querem sentir-se parte de algo, mas de algo grandioso e emocionante. Uma aventura.

Quando se consegue criar esse conteúdo, seja em texto, foto ou vídeo, os seguidores estão garantidos. Por isso é que alguns temas são mais populares. Viagens. Partir para quer conhecer o mundo. Maquilhagem. Sentir-se bela por uns instantes. Moda. Fazer parte de algo com uma aura de divino.

Depois há o revés. Aquilo que não se adora, mas se faz quase por obrigação. Trabalho. Seguir especialistas para estar a par das mudanças legais, tecnológicas e de simples truques. Culinária. Temos de comer, que seja algo diferente. Desporto. Rever jogadas impressionantes, polémicas ou violentas.

Todos estes nichos não precisam de seguidores porque a pesquisa traz muita gente diariamente. Se conseguires ter uma comunidade e visualizações/leituras por pesquisa, é sorte dupla.

O isolamento e as amizades

Uma das coisas mais chocantes que Stephanie diz logo ao início, é que Emily é a sua maior amiga. E que só a conhece há algumas semanas. Emily não é blogger, a única coisa que têm em comum são os filhos, amigos inseparáveis. Isso faz com que falem, com que se abram sem pretensões. Lentamente ela repara que não confia em mais ninguém. O mundo adulto é traiçoeiro e fazer novas amizades não é fácil. Especialmente quando se tem filhos e se vive em função deles.

Seria de esperar que dessem a Stephanie amigas bloggers, mas ela é a única no filme. É apresentada como a super-mãe da escola e ter tempo para um blog é só mais uma coisa que as super-mães fazem e as outras não. O blog acaba por se tornar mais um motivo de isolamento. Portanto, a segunda dica é: fala com as pessoas.

Resumo

Leticia Dolera sentada ao computador a blogar na websérie "Bloguera en Construcción"
Fotograma da websérie “Bloguera en Construcción” com Leticia Dolera

Faço aqui um parênteses no cinema para falar de uma web série sobre a vida de uma blogger de moda. “Bloguera en construcción” foi um projecto de Leticia Dolera para uma revista. Em cada mini episódio narra de forma extremamente cómica uma das dificuldades de se ser blogger:

  • trabalhar um nicho que não tem nada a ver com a personalidade;
  • criar uma tribo de seguidores;
  • ter amigas famosas para aparecer nas fotos e ganhar seguidores;
  • seguir as tendências;
  • ir a encontros de blogs para fazer amizades com outras bloggers (quando até vemos a blogger Miranda Makaroff do Hermanas Miranda);
  • trabalhar com marcas;
  • mudar quem somos;
  • ir a eventos.

Se entenderes castelhano, investe uma hora nisto porque resume com humor as maiores dificuldades. Tudo isto é ser blogger, e a única coisa que é preciso reter é que conhecer pessoas é suposto ser divertido e não uma obrigação. São pessoas com quem já temos algo em comum e há tema de conversa, por isso está dado o primeiro passo para correr bem.

Se estivermos de bem connosco e com os outros, se escrevermos de forma espontânea sobre o que gostamos e se nos esforçarmos para dar uma imagem minimamente profissional, não é difícil ter sucesso. Mas também depende da sorte.




Setembro 15th, 2018 Por